"Estamos vivos e estamos aqui". A noite eufórica dos Keane no Campo Pequeno
27.01.2020 às 1h20
Mais de sete anos depois do último concerto em Lisboa, os Keane foram recebidos com doses industriais de carinho e entusiasmo pelos fãs que esgotaram o Campo Pequeno
Duas horas de canções, emoções fortes e uma grande comunhão entre banda e público. No regresso a Lisboa após sete anos de ausência, o grupo inglês - que no sábado lotou o Coliseu do Porto - ofereceu um concerto longo, esforçado e praticamente sem momentos mortos, provando que os êxitos com que vem povoando as ondas radiofónicas ao longo dos últimos 15 anos têm um lugar especial no coração dos fãs nacionais. E que, a fazer fé no incansável Tom Chaplin, a pausa que fizeram (entre 2004 e 2008, estiveram em "hiato") só lhes fez bem.
Terá sido no Natal de 2018 que Chaplin, vocalista e a face mais reconhecível da banda, e Tim Rice-Oxley, teclista e compositor de muitos dos êxitos dos Keane, voltaram a juntar-se para falar sobre um possível regresso às canções. "Ficámos a falar à lareira, foi muito romântico... quase nos beijávamos", brinca Tom Chaplin, sempre muito conversador. Em honra à amizade que os une, contou, e inspirados por uma fase mais complicada na vida de ambos, escreveram as canções de "Cause and Effect", o álbum do final do ano passado que serve de pretexto a esta digressão. "Passámos por alguns problemas, mas estamos vivos e estamos aqui esta noite!", exultou o cantor, sempre muito aplaudido pela plateia carinhosa.
A relação especial que a banda tem com Portugal remonta à sua primeira visita ao nosso país, em 2005, para um concerto no Coliseu dos Recreios. Os Keane dizem-se fãs das "belas e históricas cidades de Lisboa e do Porto" e Tom Chaplin garante que também nos visita quando não está "em serviço". "Sou uma daqueles ingleses horríveis que vocês veem no Algarve", confessa, informando um fã algarvio que lhe oferece estada no sul do país que só poderá aceitar se ele viver "numa moradia enorme com piscina, perto de um campo de golfe".
O clima de festa no aguardado regresso dos Keane à capital fazia sentir-se mesmo antes do concerto, com palmas e assobios servindo para chamar pelo quarteto; à hora certa, os quatro rapazes (além de Chaplin e Rice-Oxley, Richard Hughes na bateria e Jesse Quinn no baixo e guitarra) são recebidos como heróis e é evidente que, apesar de não serem uma das bandas mais badaladas do momento, o público sentiu a sua falta.
A suave 'You're Not Home', tema próximo da indietrónica, retirado do disco novo, ajuda a matar as saudades e a mostrar um dos "truques" prediletos de Tom Chaplin: os crescendos eufóricos, que por vezes o deixam em território próximo do de Brandon Flowers, dos Killers. Seguiu-se uma visita dupla e bem recebida a "Strangeland", o álbum de 2012 que antecedeu o hiato, com 'Day Will Come' e 'Silenced by the Night'.
Ainda que tolere bem as novas canções (e que, nas primeiras filas, as cante com paixão), o público explode verdadeiramente com os grandes êxitos: ontem à noite, a sequência 'Everybody's Changing' e 'Is It Any Wonder?' foi a primeira a causar mossa, levando Tom Chaplin a elogiar a reação da turba: "Estão muito animados para um domingo à noite!", espantou-se. No final da 'maratona', dizendo-se exausto, explicaria ter recebido "muita energia" do público. "Limitámo-nos a retribuí-la".
Visualmente discretos, sem recurso a pirotecnias ou mesmo projeções, os Keane apoiam-se na força de canções altamente melódicas ('Disconnected', 'Bend and Break', 'Bedshaped', entre outros êxitos que poderemos não nos lembrar de conhecer - mas conhecemos) para dar um espetáculo sem quebras de ritmo. Pelo meio, vão salpicando o alinhamento de baladas ('Strange Room', 'She Has No Time') que enchem as bancadas do Campo Pequeno de isqueiros modernos, ou seja, luzes de telemóvel. Do seu chapéu britânico, os cavalheiros tiram ainda regressos ao passado ('Try Again', do segundo álbum, "Under the Iron Sea", de 2006) e toda uma conversa que envolve o público no espetáculo. "Vamos voltar ao começo, quando era só eu e dez canções", anuncia Tom Chaplin, doseando bem o esforço vocal ao longo do serão.
No caminho para o encore, os momentos de êxtase sucedem-se: a cantoria comunal em 'You Are Young', de 2012, leva Mr. Chaplin a dizer que o público é suficientemente bom para entrar na banda; 'This Is the Last Time' gera, sem surpresa, um dos coros mais impressionantes da noite, e 'Love Too Much', do novo disco, não lhe fica a dever quase nada em delírio popular.
No lesto regresso ao palco, os Keane remataram duas horas de entrega absoluta com a tripla 'In Your Own Time', 'Crystal Ball' (e o teto da sala estava todo iluminado) e 'Sovereign Light Café'.
Foi uma noite triunfal para uma banda que, com canções que não perdem tempo a chegar ao refrão e um vocalista/relações públicas motivadíssimo, fez as delícias de uma plateia igualmente empenhada. Uma nota final para a mistura agridoce que os Keane operam entre a alegria de tantas das suas canções e o subtexto melancólico das mesmas; afinal, Tom Chaplin é o rapaz que já aos 25 anos cantava: "Oh, simple thing, where have you gone?/I'm getting old, and I need something to rely on". E, incorrigivelmente romântico, o público português cantou com ele esta tirada de 'Somewhere Only We Know', um de muitos pontos altos de um concerto que deverá ficar no álbum de boas recordações dos Keane.
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