Devendra Banhart ao vivo em Lisboa: somos todos latinos
17.02.2020 às 2h07
Canções em espanhol, inglês e um pouco de japonês, um momento de "discos pedidos", uma comunicação non sense mas divertida com os fãs. Na primeira noite no Capitólio, Devendra Banhart esteve em casa
Um idioma pode mudar tudo, ou quase. Que o diga Devendra Banhart, que neste domingo à noite deu o segundo de três concertos esgotados em Portugal (na véspera, estivera no Porto, na segunda-feira volta a pisar o palco do Capitólio, em Lisboa). Impecável num fato de cor sóbria, o rapaz cujo coração tem duas cores (as da bandeira venezuelana, da sua família, e a dos Estados Unidos, onde cresceu) apresentou-se ao público português (e não só; havia muitos turistas na plateia) com uma discrição que contrasta com a extravagância de tempos que já lá vão. Outrora porta-estandarte daquilo a que se convencionou chamar freak folk, Devendra Banhart transportou o nomadismo da sua infância e juventude para uma música continua a ser feita de nuvens psicadélicas, derivas de rock clássico, jams bem hippies, soft rock e até synth pop. Tudo isto é Devendra e, a avaliar pela boa disposição com que chegou a Lisboa, tudo isto o diverte.
De volta ao idioma: ainda que os melómanos portugueses sejam versados em pop-rock anglo-saxónico, é diferente a reação que se pressente na sala quando Devendra Banhart, 40 anos de talento e carisma, tira o pó à língua de María Eugenia, sua mãe. É o que acontece ao quarto tema da noite; ainda que a dulcíssima 'Is This Nice?', do mais recente "Ma", e 'Kantori Ongaku', do mesmo álbum, tenham sido recebidas com carinho, algo se solta quando o inglês do nosso anfitrião dá lugar ao castelhano de 'Mi Negrita'. A encantadora canção de "Mala", de 2013, espalha sorrisos e liberta ancas pela sala, e mesmo em palco Devendra - acompanhado por uma banda onde se destaca Andy Cabic, aka Vetiver, na guitarra - passa a ser outro. Mais teatral, mais brincalhão, mais próximo, e a língua em que canta tem de ter alguma coisa a ver com isto, como se o esperanto do inglês fosse de todos e o castelhano, sendo apenas "emprestado", parecesse um pouco mais nosso.
Inicialmente sentado com o violão (é tentador usar a terminologia verde e amarela, com tanto Brasil que há nas canções de Devendra Banhart - e pela forma como o seu timbre brinca tão de perto com o de Caetano Veloso),o venezuelano-americano levaria os fãs numa viagem pela sua galáxia de influências, géneros musicais e disposições.
Ao longo de hora e meia, Devendra Banhart alternou entre então o violão, a guitarra elétrica e o deambular pelo palco apenas de microfone em punho, como fez em 'Taking a Page', uma das várias canções que desaguaram em pequenas jams, lembrando os tempos mais expansivos de 'Santa Maria da Feira' (um clássico regional que ficou de fora do alinhamento, tal como o single, recente e solar, 'Abre Tus Manos').
Capaz de alternar entre momentos sombrios e a luz absoluta de 'Carolina' (cuja deixa "eu deveria aprender a falar português" foi, previsivelmente, brindada com uma salva de palmas), o antigo noivo de Natalie Portman respondeu ainda a pedidos de fãs, passando com brevidade por 'So Long Old Bean' e 'Bad Girl', de "Smokey Rolls Down Thunder Canyon", de 2007. Mais uma vez sentado com o violão, interagindo diretamente com os admiradores e brincando com o vibrato que em tempos foi a sua imagem de marca, Devendra Banhart está sozinho em palco mas nem damos pela falta da sua banda, e não é por demérito dos músicos que o acompanham, mas sim pela graça natural com que o homem cujo nome aparece nos cartazes é capaz de cativar, recorrendo 'apenas' à voz cantada e às palavras que torna suas.
Provando que a estranheza não desapareceu do seu universo, o autor de "Rejoicing in the Hands" envolveu-se ainda em conversas non sense com o público (a alguém que lhe gritou "I love you!", respondeu com uma divagação sobre o facto de o mundo ser "estranho e surreal"; "é a minha forma de dizer que também gosto muito de ti") e saltou diretamente da experimentação de 'Fig In Leather' para o prazer duplo, e nada culpado, de 'Für Hildegard von Bingen' e 'Never Seen Such Good Things', dois bombons do sortido de "Mala" e uma das sequências mais divertidas da noite.
Não foi uma viagem isenta de hesitações e ajustes de ritmo, mas a jornada acabaria por chegar a bom porto. Nos últimos metros, Devendra Banhart e banda (na qual a única pessoa que sabia o que estava a fazer, segundo o 'patrão', era a guitarrista Nicole Lawrence) deleitaram-se na jam de 'Seahorse', na dolência de 'Celebration' e, para o adiós derradeiro, na festa de 'Carmencita'. Mais salero gostoso, mais festa acalorada numa noite amena antecipando a primavera que há de vir, mais uma prova de que já estivemos de costas mais voltadas para os nossos vizinhos de península.
"Soltem os fogos!", podia Devendra Banhart ter dito. Ao invés, apelara, minutos antes e no seu português via Caracas, que o público saísse do Capitólio e desfrutasse "de muita marmelada!". O movimento New Weird America pode já ter arrumado as botas, mas Devendra continua esquisito. E bonito, e nosso.
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