Angel Olsen
Grave, orquestral, vulnerável e vibrante. O novo álbum de Angel Olsen é um tesouro raro
02.12.2019 às 12h03
Ao quarto álbum, Angel Olsen consegue definir as suas emoções como nunca. Uma intimidade amplificada
Tanto no prisma do observador desinteressado como no do admirador comprometido, a vida parecia correr bem a Angel Olsen, compositora norte-americana nascida na reclusão da folk, cantora virtuosa com um timbre que ora estuda o canto dos Apalaches ora perscruta a resignação fadista, singularmente capaz de almejar a torch song intemporal. Contudo, na digressão de “My Woman” (2016), o seu terceiro álbum e aquele onde a paleta sonora se escancara mais flagrantemente (houve sempre um pingo de rock, passou a haver sintetizadores mais vincadamente), Angel Olsen confrontava-se com um não tão inusual paradoxo: o sucesso artístico não encontrava a mesma luminosidade no reduto emocional. Na aridez da estrada, Olsen – então nos últimos anos da casa dos vintes – bebeu mais do que devia, chorou mais do que queria, perdeu-se num labirinto revoltantemente difícil de resolver, mas fácil de explicar: eram dores de amor (esteve prestes a casar), era a solidão do abandono (terá enfrentado com choque o fim da relação amorosa), era a miséria da humilhação (o desgosto que se adensa).
“All Mirrors” é o ‘álbum negro’ de Angel Olsen, aquele onde um abnegado luto permeia 11 canções que começaram num momento de demissão. Instável emocionalmente, insatisfeita com o dia-a-dia longe de casa, saturada dos companheiros de banda, Olsen fechou-se e voltou atrás, à economia de “Strange Cacti”, o EP de voz e guitarra com que se apresentou em 2010, o disco onde decalca (na ilusão de ‘Drunk with Dreams’) o dedilhar de guitarra de ‘Barco Negro’ – o disco onde nos diz quem é. O resultado não poderia, contudo, ser mais diferente do que o primeiro esboço; o recolhimento esbarrou na ambição dos dois principais colaboradores, o multi-instrumentista Ben Babitt (com currículo em bandas-sonoras de filmes e videojogos indie) e o arranjador Jherek Bischoff, e ela entusiasmou-se com a síntese. O primeiro acrescentou à base artesanal instrumentação aturada – Mellotron, vibrafone, piano –; o segundo trabalhou com Olsen em opulentos arranjos de cordas. “All Mirrors” ia ser um outro disco.
‘Lark’, a abrir, é um tremendo declarar de intenções, percebendo-se logo que a “perda de empatia, confiança e amor por pessoas destrutivas” (Olsen dixit) é um mote nunca abandonado. A pele é suturada com versos como “Learn to look me in the eye / Yet I still don’t feel it’s me you’re facing”, a combustão é lenta e magistralmente adornada com um aparato orquestral que tanto evoca a solenidade de Scott Walker como a temperança panorâmica de Sixto Rodriguez – o auge depois de 5 minutos, explosão de violinos em raide aéreo e, em plenos pulmões, “What about my dreams? / What about the heart?”. À flor da pele e em gestos grandes.
É o equilíbrio entre a grandiosidade da música e a fragilidade das emoções cantadas que fazem de “All Mirrors” um álbum raro. É como se Angel Olsen amplificasse a sua intimidade sem medo de esborratar a maquilhagem. A sua voz não grita no vazio, mas não emudece perante o trovão da música (o tema-título é outro exemplo de tal argúcia), envolvendo-se agora com maior maleabilidade nas canções em vez de lhes servir de esqueleto (até porque é praticamente ‘expropriada’ da guitarra), baixando a guarda quando a candura é maior (‘Spring’, uma delícia), não temendo despedir-se com uma canção de embalar (‘Chance’), misto de súplica com vontade de vencer. Bendita seja.
Angel Olsen regressa a Portugal para três concertos em 2020: 22 e 23 de janeiro no Capitólio, em Lisboa; 24 de janeiro no Hard Club, no Porto.
Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 12 de outubro de 2019
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