São quatro super-heróis? Uma saga de BD? Não, é “só” o sonho lindo de Bono e dos U2, tocando as estrelas em Lisboa
17.09.2018 às 3h09
Visualmente inatacável e conceptualmente desafiante, o novo espetáculo dos U2 é uma viagem ao coração da banda e uma reflexão sobre o presente, com a esperança sempre por perto. Na primeira de duas noites na Altice Arena, foram brilhantes
Pode um concerto desenhado para grandes salas revelar-se, afinal, uma ocasião familiar? Nesta noite quente de domingo, os U2 provaram, com o primeiro de dois espetáculos lisboetas da Experience and Innocence Tour, que tocar para 20 mil pessoas pode ser praticamente tão intimista como dar um concerto num bar. Primeiro, porque é evidente - e comovente - a crença que Bono ainda deposita nas canções, novas e velhas, e isso torna tudo mais humano. Depois, porque o que é balofo em tantas bandas e artistas - os agradecimentos ensaiados a Portugal - ganha aqui um rebordo carinhoso e cuidadoso. Ao longo da noite, temos direito a discursos legendados em portugês, ao desenho esmerado da cidade de Lisboa em 'City of Blinding Lights', a um "shout out" de Bono a Cristiano Ronaldo, Eusébio e António Guterres...
Os U2 andam nisto há muito tempo e oferecem, nesta digressão, uma sucessão imensa de momentos perfeitos para serem filmados, instagramados, hashtaggados - mas sem nunca parecerem vazios. No comboio para casa, uma fã confessava à amiga: "filmei o concerto quase todo", e não vamos mentir - a tentação, ampliada pela qualidade sonora e visual, era forte. Mas talvez o aspeto que torna mais familiar a "experiência" (a de um menino que tenta recuperar a sua inocência, conta o narrador Bono) seja a forma despida,quase espartana, como muitas canções - muitas das grandes canções - são apresentadas. Neste espetáculo, há dois palcos + 1, e é no mais convencional - retangular, ao fundo da arena - que algumas das performances mais sentidas têm lugar. 'I Will Follow' - "a nossa canção nova!", brinca Bono - não precisa de efeitos especiais, tal como 'New Year's Day' ou 'One'. Naquele palco, o da inocência, os U2 são quatro rapazes de Dublin, juntos há quatro décadas, tocando à beirinha uns dos outros durante duas horas. E a magia não precisa de mais nada para acontecer.
Com este elogio não pretendemos desmerecer o espetáculo - imponente e altamente cativante - que os U2 montaram para a promoção do seu novo disco. Nesta digressão, três espaços correspondem, grosso modo, a três estados de espírito: rock e direto ao osso no palco 1 (o retangular, onde acabarão por nem passar assim tanto tempo); fantasioso na passadeira, ora tapada por um "gradeamento" ora a descoberto, e intimista no pequeno círculo onde, a escassos centímetros dos fãs, apresentarão uma versão acústica de 'You're the Best Thing About Me' ou encarnarão uma curiosa sequência do espetáculo, uma espécie de 'mea culpa' em modo showbiz. Mas já lá vamos.
Com algum atraso face à hora marcada para o começo do espetáculo, os U2 materializaram-se na forma de sombras dentro da tal passadeira tapada, depois de uma introdução comovente e empolgante. Cruzando imagens de cidades bombardeadas durante a II Guerra Mundial (e de Lisboa em 1926, ano do golpe militar que abriria caminho à ascensão de Salazar), o espetáculo dava-se a conhecer de forma honesta: com uma forte mensagem política (sem, porém, ser tão panfletário como o de Roger Waters nesta mesma sala) e visualmente deslumbrante. Erguido o gradeamento sobre a passadeira, revelava-se o aperitivo, o prato principal e a sobremesa da noite: Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen, Jr. recebidos pela plateia com uma ovação esmagadora.
Na canção que se seguiria, 'Lights of Home', também do novo disco, apenas Bono permaneceria no palco circular (o da experiência), galvanizando o seu exército de fãs, enquanto os companheiros ocupavam os seus postos no palco inocência. E se os temas mais recentes dos U2 não logram andar na boca do mundo como em décadas que já lá vão, a banda e a sua equipa arranjam sempre uma forma de ligar o coração, que sempre pulsa nos seus melhores momentos, à tecnologia de ponta, que aqui não desumaniza, antes amplia a experiência, tornando-a mais inclusiva.
Ainda estamos na segunda canção e já Bono pulou para o palco da inocência, já se pôs de joelhos, já caminhou sobre o que, naquela altura, parece ser uma via láctea. Para a "nova canção", que trazem na cartilha desde 1980, o pavilhão outrora conhecido como Atlântico reserva uma explosão de emoção à moda antiga: no palco "rock", em 'I Will Follow' há quatro rapazes tocando juntos e uma energia que dispensa adereços, tudo catapultado por uma voz bem lá em cima, provando que os problemas que afetaram o cantor em Berlim parecem estar ultrapassados.
Neste primeiro ato do espetáculo, e depois dos festejados acordes luminosos de 'Beautiful Day', Bono viajou até à infância e juventude, recordando a mãe, Iris, em 'The Ocean' e 'Iris', momentos atmosféricos e comoventes, ilustrados por imagens de Iris Hewson, falecida em 1974, mas também revisitando os amigos "e inimigos" da sua 'Cedarwood Road', em cuja ilustração os U2 provam ser a única banda capaz de, em 2018, misturar David Bowie e a Sagrada Família sem um pingo de ironia.
Numa passadeira iluminada pelas cores da bandeira da Irlanda, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen, Jr desfilaram numa espécie de marcha lenta para se juntarem a Bono que, no "palco casa", os aguardava para uma apoteótica interpretação de 'Sunday Bloody Sunday'.
Dominando na perfeição as diferentes temperaturas do espetáculo, os U2 entravam no segundo ato de forma divertida e inesperada: ao fundo ouvia-se 'Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me', da banda-sonora de "Batman Forever", e no ecrã víamos o quarteto fantástico de Dublin na pele de personagens de banda desenhada. "Inocência e Experiência - a Viagem dos Heróis" era o título da historieta que serviu de introdução à sequência Vertigo, onde - curiosamente - Bono assume, ora com modéstia, ora com soberba, a megalomania que, a certa altura, atingiu a sua banda. Explicando, sempre com legendas em português, que o sucesso tanto expande como encolhe o ego, a estrela de 58 anos atirou-se com unhas e dentes a uma sequência que, musicalmente, é das mais desanuviadas da noite: 'Elevation', 'Vertigo', 'Even Better Than the Real Thing' e 'Acrobat', canção recuperada a 'Achtung Baby', de 1991, que traz de volta o maquiavélico Macphisto. Personagem da digressão Zoo TV, o 'chifrudo' fez menção aos movimentos nacionalistas em ascensão em Itália, Polónia, Hungria ou França. "Todos têm o meu rosto", lembrou, no fim deste set circense e teatral.
Praticamente sem momentos mortos, o concerto conhecia logo de seguida um dos momentos mais ternurentos com a versão unplugged de 'You're the Best Thing About Me', dedicada à mulher de Bono, Ali. E chegávamos assim ao coração de toda a atuação.
Aparentemente inofensiva, 'Summer of Love', do novo disco, é na verdade uma reflexão sobre a crise dos refugiados no Mediterrâneo. Mas só no final do tema é que, ao som cintilante da guitarra de David Evans, as imagens dos barcos à deriva enchem o ecrã. Sem piedade, sucedem-se vídeos de manifestações nazi e anti-nazis e o hino 'Pride (In the Name of Love)' faz-se ouvir, com aquele poderio imorredouro. Com a plateia em perfeita ebulição, Bono grita: THIS IS WHO WE ARE. Minutos antes, o doutor Macphisto lamentara não haver fascistas naquela sala. Mas como com coisas sérias não se brinca, Bono repete, como que exorcizando o mal: THIS IS WHO WE ARE. E se tivermos de escolher o momento da noite, que seja este.
Amanhã, nós sabemos, voltaremos a embirrar com tudo o que mexe, nas redes sociais e até na vida real, mas enquanto Bono não desaparece no meio da multidão, num eclipse algo anticlimático, estamos todos a viver na sua fantasia, uma fantasia na qual frases como "recusamo-nos a odiar, o amor funciona melhor" fazem sentido.
É, citando Fausto, um sonho lindo, que continua a navegar as águas do Tejo ao som de 'Get Out of Your Own Way' (dedicada à União Europeia), da sempre brilhante 'New Year's Day' (no palco rock, claro) ou de 'One' - uma banda, um coro, um amor bonito de se presenciar.
Até ao final, Bono ainda teve tempo de agradecer a Ana Moura por integrar o coro da campanha Poverty is Sexist, entoando 'Women of the World Take Over', e para fazer algumas contas de cabeça: nesta fase da sua vida, pautada pela aparente humildade, ele é "um quarto do artista" se não estiver com The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen, Jr., e "meio homem" se apartado da mulher. A matemática não mente, mas é em Paul Hewson que todos os olhos se deitam no adeus - quando, depois de 'Love is Bigger Than Anything in Its Way', acompanhada por imagens de amor entre pessoas de todos os sexos, regressa ao palco circular e se despede ao som da singela 'There Is a Light'. Depois, sempre rodeado por seguranças, desce para o público para uma merecida volta de honra - e desaparece, sem mais. Uma forma de matar o ego? Foi certamente um dos concertos mais impressionantes que vimos este ano, e repete na segunda-feira, na mesma sala.
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